Em sua cena transformou cada elemento que tinha (alma capturada, criatura...) em um personagem diferente: o padre, o menino puro, o diabo, a puta. Para mudança de personagens passava por trás da panada para trocar o figurino, faltou uma finalização no trabalho. Aconselho a ele ver mais peças, quanto mais vemos melhores soluções cênicas bolamos. Ao final Wlad questionou acima de tudo o argumento da cena. Alisson criou um texto extremamente pessoal e consequentemente agressivo, que quem o conhece fora de sala está cansado de ouvir, frases do tipo: "Sou um menino puro e vocês não vão me corromper". Eu sinceramente não tenho a paciência da Professora, acho as atitudes dele bobas, e espero que o meu amigo repense essas coisas.
Fui a segunda a apresentar.

O processo de criação partiu da leitura que Luana fez do material que eu já tinha. Como eu não possuia uma alma capturada ela inseriu minha criatura no lugar que eu havia escolhido, e disse que eu seria esse inseto que desejava atravessar a rua, ver o que havia do outro lado, a cena começaria com o inseto querendo voltar para casa (coreografia), arrependido, perdido neste espaço que é muito maior que ele.


Luana me deu também outra música como estímulo para execução da coreografia que seria
O mundo é um moinho, do Cartola.
À partir destas indicações, fui fazendo pequenas modificações, o inseto que seria alma e não a parte visual, plástica da cena, estaria seguindo pela estrada para além da curva, indo embora e não mais voltando, rumo ao que não se sabe. E aqui eu faço uma comparação a disciplina Trajetórias do Ser, porque estamos de partida rumo ao que não se sabe, feito inseto numa estrada em que só passam caminhões. Sendo assim uma despedida da disciplina e uma síntese de todos os trabalhos busquei a mala que usei no primeiro trabalho: cena da cobra. Nessa primeira cena eu entrava com a mala e um figurino base preto, aos poucos tirava o figurino da cobra de dentro da mala e ia vestindo a personagem enquanto dizia o texto. Nesta ultima cena agora eu entrava com o figurino, em silêncio e o palco já estaria cheio de coisas espalhadas nele: caderno, cds, garrafa peti, panetone, pus ali tudo que é palpável pra falar do que não é. Entro ao som de
Então é natal, com o personagem da cobra, rapidamente desisto, essa cena já foi feita. Abro a mala agora vazia e começo a recolher os objetos de cena, história vai pra mala, coro vai pra mala, canto vai pra mala, vou até o som da sala e tiro o cd da Simone, vai pra mala. Tiro a roupa da personagem, cobra vai pra mala. Tiro a roupa base preta porque é o meu figurino e a minha falta de criatividade em quase todos os trabalhos, vai tudo pra mala. Mala fechada, som de caminhões na estrada. Coreografia. Foi difícil manter a música do Cartola em mente com o som dos caminhões ao fundo. O nu foi o que me pareceu mais adequado como figurino do inseto, tanto por me fazer encolher, ou ao menos é essa a sensação que me dá, como por representar a fragilidade daquela criatura, o nu é a desproteção. É também maneira de dizer a turma que eu estou desarmada, sou o alvo porque quero, aberta para ouvir o que geralmente não se quer ouvir. Gostaria de ter voltado pra casa pensando nas coisas que eu deveria buscar.
“É o ato de desnudar-se, de rasgar a máscara diária, da exteriorização do eu. É um ato de revelação, sério e solene. O ator deve estar preparado para ser absolutamente sincero.”(GROTOWSKI, 1992)
Depois de ter apresentado penso que visualmente a coisa é muito pobre, como em todos os meus trabalhos, objetos largados em cena, sem iluminação adequada, um desleixo reflexo de minha preguiça nesse sentido, se fosse refazê-la mudaria bastante a visualidade da coisa. Tenho muita vontade agora de fazer algo caprichado, e rico plasticamente falando.
A próxima cena foi do Carlos.
Um capricho visível em seu trabalho. Utilizou projeção, música, iluminação, aroma, maquiagem, uma produção zelosa. Carlos entra com a vela, cantando a ladainha que usara na aula do dia 06/05, sob um foco de luz num dos cantos do palco lê um texto sobre ritual; foco apaga e ele chega até outra extremidade do palco, outro foco de luz, é um camarim, Carlos veste o figurino de palhaço. Foco apaga e entra a projeção do lugar, uma estrada, execução da coreografia. Vi no trabalho dele 3 cenas desconexas mas bem boladas, confesso que me incomoda a falta de ligação entre as cenas, mesmo sabendo que não precisa ter. Na conversa depois das apresentações falamos de um trabalho por vez, todos podiam dar suas impressões e depois o autor finalizava comentando também, Carlos nos contou que esqueceu uma parte do texto do início que fazia mensão à próxima cena. Sinto falta desse link, talvez porque minha cabeça ainda funcione de forma muito quadrada.
Nenhuma das escolhas de cenografia me agrada de verdade, mas ao menos Carlos não tem a preguiça que eu e grande parte da turma temos nesse sentido de experimentar, ele é uma das pessoas que dá vontade de trabalhar com.

Cleice foi em seguida, entendo a cena dela como uma boa demonstração de repertório, com poucos elementos em cena mostrou a passagem de um a um dos personagens criados durante o semestre, começou a cena com uma velha quase cigana, usava panos cobrindo o corpo, pouca maquiagem, e um incenso, ruidos incompreenssíveis, passou para a mãe da cena de nossa segunda aula, execução da canção de roda (laranja madura), encerra com uma nova personagem, mulher "oferecida". A falta de narrativa comum não me incomodou neste trabalho, pois enxerguei outra lógica ali. Só é preciso ter um pouco mais de cuidado com o tempo, o momento da cigana se prolongou demais, as pessoas acabam dispersando depois de certo tempo.
Enoque inicia virado de costas para a platéia centralizado no fundo do palco, vira-se apresentando a dona de casa com o saco de lixo na mão, ela vem até a frente e leva o lixo para "fora", usa o texto de sua primeira cena na disciplina, agora editado, ele está com uma maquiagem de macaco depois

justificada pelo comportamento dessa mãe que bebe e haje como macaca, nesse momento Enoque poderia ter explorado mais essa idéia, ao invés de dizer no texto: "Pulei feito uma macaca", poderia ter agido como uma sem usar a fala, a fala é muitas vezes uma saída fácil que empobrece o trabalho, o mesmo acontece mais tarde quando ele vira o mendigo que vai remexer o lixo que a dona deixou, isso é uma boa solução! Falar o quanto ele é pobre e não tem lar, nem tanto. A genialidade no teatro é conseguir contar as coisas fora do texto, senão tornamos o espectador meros receptores de uma informação mastigada, o que é melhor? Cabeças recipientes ou pensantes?

Carla foi quem fez a melhor colagem. Ela tem em mãos um trabalho pronto, redondinho, quem assistir jamais vai imaginar como foi o processo de construção, o caráter fragmentado desapareceu por completo. Usa a história que contou no primeiro dia sobre a cobra, sempre intercalando com os outros elementos: Coreografia, personagem da mulher cobra (minha história), Música Medida da paixão. Para Carla só meus elogios! Na conversa do final Ivanilde disse que achou o trabalho tímido e que Carla deveria arriscar mais, pois seus trabalhos são sempre muito parecidos.
Michel estava com uma peruca azul que ele mesmo fez, uma atmosfera onírica permeou o
trabalho dele, brincou com o foco de luz quadrado como se fosse o terraço
de um prédio, ameaçava saltar, personagem estranho, aspectos femininos, não necessariamente mulher nem homem, em determinado momento ele cai, criou ali um quarto plano uma profundidade que não existe, muito bom, jogo excelente com a luz. O personagem em cima do prédio vira uma garrafa de cachaça goela abaixo no palco, prepara-se para um suicídio, brinca com a vertigem, enxergo a cena dele como uma representação abstrata do desespero, é um fundo de poço, que ali é alto de prédio.
Luciano chegou no fim da aula, com figurino e tudo, deveria ter se apresentado mas ficará para a próxima aula.
Encerro por aqui a página de hoje com um incentivo aos que ainda vão apresentar, a frase é do Carlos.
"Tudo partiu de mim então tem conexão!"